segunda-feira, 13 de abril de 2009

Peleia

Foi chegando para um baile certa vez, curioso como só, naquela noite de primavera via logo que coisa de gente direita não era, mas o vício nunca para e nem se ajeita. Parou o cavalo num galho de árvore ali perto e foi chegando devagar. Era assim desde pequeno. Em bruxas não acreditava, não brincava e nem andava prevenido, por conta disso havia tanta criança sem pai.

Foi chegando devagar, como se fosse convidado, olhava um ambiente fumaceado com um lustre bem no centro, que pra quem chegava de fora, mal se enxargava. Entrou e já passou a mão numa guria que cruzou a sua frente e saiu rodando perna entre a poeira e a fumaça. Morena lindassa, dessas que faz a noite imuninar, misto de diabo e santa. Se grudou na guria mais do que um carrapato e o gaiteiro que era um mulato que até dormindo tocava. E a gaita velha chorava e gemia, as vezes quase parava e de repente se acordava pra um vanerão puxado. E ali que não soltava aquele corpo moreno, sentia a pele macia e via o mundo pequeno entre dois olhos que pareciam flores.

Mas tudo que é bom se termina, dizia aquele ditado e ele que dançava feliz nos braços da doce guria, escutou de relance uma espécia de resmungo, que era do dono do local meio quieto num canto, só olhando espantado. E foi nisso que ele entrou no meio, pois era dele a morena, bufando e abrindo caminho como dono de tudo aquilo. Puxou o facão e quis lhe partir no meio de uma vez só, que se pega, estraga e tudo termina aqui. Conseguiu desviar na volta do braço, quase se atrapalhando por causa do pouco espaço, sentiu o calor do aço e o calor do aço arde, se levantou bem ligeiro por causa do desaforo.

Já vi tanta coisa feia nesse mundo que talvez quem leia nem acredite, mas me arrepia lembrar daquela peleia, pois vi brotar na cara, da boca até a orelha. O dono do local parecia um touro, mas touro também se ajoelha e cortado da boca até a orelha, amontou-se como couro fazendo daquilo um estouro que espantava a mulherada. Não há como retratar uma peleia dessas, com facas sendo afiadas e tiros de quarenta e quatro em cada canto da sala. Ainda mais com a velha gaita fazendo acompanhamento pro barulho das balas. É mulher que se escabela berrando porta afora, e aqueles que não se garantem vendo sangue sem mandam levanto tudo à frente.

Acreditava que morreria quando Deus quisesse e naquela bagunça toda de gente fugindo e bala zunindo, o gaiteiro alheio a tudo tocava uma dança e tanto, já quase dormindo. E assim foi, até perceber estar sem munição, analisou a situação, todos atirando contra si, percebendo que era o fim, não quis ficar pra semente, enquanto lhe esperavam nos fundos, saía pela porta da frente. E por aí correu pelo mato, debaixo do tiroteio ainda escutando o gaiteiro, cruzou o Rio Uruguai a nado e deixou esse fato esquecido no tempo.

Todos perguntam da morena toda vez que ele conta, mas considera uma desfeita que não consegue entender. Ele corria perigo naquela situação tremenda e só perguntam da guria. A guria nunca mais viu nas suas andanças por todo lado, talvez estivesse por aí ou talvez seja uma estrela que se banha nua nas águas do Uruguai.






Inspirado em BOCHINCHO de Jayme Caetano Braun!

2 comentários:

FUMADOR disse...

ola ju olhe o blog noite arrepiante agora encontra-se aqui juntei ao meu outro bjs

Ana Átman disse...

Oi. Achei vc pq tb tenho um blog com o mesmo nome do seu. Fico feliz de encontrar um gaúcho tb. Depois volto pra ler mais suas pegadas. Agora tô com pressa. Bjo.